segunda-feira, 7 de maio de 2007

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Aí está Karl Marx lança novos livros, texto escrito pelo Yuri e publicado no blog dele:


Programa Noturno: E para esse bloco de “O Programa Noturno Talk Show” convidamos um dos escritores mais famosos da História. Ele, que contestou o sistema econômico de sua época e fez de inimigos toda a burguesia [risos da platéia], está aqui no nosso estúdio para lançar seu novo livro. Eu chamo para o palco, Karl Marx!

[Aplausos. Jazz é tocado para a entrada da celebridade. Karl Marx se levanta do seu lugar à frente da platéia, acena sutilmente para a câmera três, cruza o palco e senta no sofá ao lado do apresentador. A música cessa]

Marx: Boa noite... [ele bebe dois goles de água da xícara com o logotipo do programa]
P.N.: E então, Marx? Ouvi dizer que aconteceu uma mudança em sua vida, é verdade?
Marx: Eu diria que isso faz parte da dialética materialista que move a história, mas você provavelmente diria que estou fazendo merchandising e isso seria uma injustiça com os meus fãs antigos. [a platéia ri e aplaude, mas Marx continua sério]
P.N.: Hohoho... Eu não faria uma injustiça dessas com você ou acabariam me chamando de burguês. [risos novamente]
Marx: Se houve mudança, eu diria que ela existe apenas no meu novo livro.
P.N.: E que mudança foi essa? Nosso público está ansioso para saber.
Marx: Bem, pensei muito sobre as minhas duas publicações mais famosas, o “Manifesto do Partido Comunista” e “O Capital”, onde defendia minhas idéias para a construção de um mundo melhor e mais justo...
P.N.: A julgar pelo movimento na América Latina, seus livros continuam na prateleira dos best-sellers...
Marx: Pois bem. Vendo o impacto que causei com os meus escritos, percebi que ninguém, até hoje, conseguiu compreender de maneira decente o que eu queria expressar. Pensei que ao gastar anos e anos em pesquisas e estudos alguém, ao menos uma pessoa, entenderia minhas teorias. Infelizmente, todos que se intitularam “socialistas” sempre distorceram o que eu havia escrito.
P.N.: Então o que o pessoal que está em casa assiste é o desabafo de um Marx decepcionado?
Marx: Você não sabe quanto tempo gastei escrevendo “O Capital”, defendendo minha tese da existência da Mais-Valia e tudo o mais. Hoje meu livro é fetiche de aspirantes ao comunismo, enfeitando escrivaninhas. Ninguém conseguiu lê-lo por completo.
Sujeito na platéia: Eu não passei do segundo capítulo!
[risos da platéia. Karl Marx abre um risinho cínico, escondido pela barba espessa]
Marx: Está vendo?
P.N.: Acho que nossos jovens estão mal-acostumados com o Google e a Wikipédia... [abre um sorriso plástico] Continue, Karl...
Marx: Depois parti para o trabalho com o “Manifesto do Partido Comunista”. De início deu tudo certo. O livro rendeu muito, uniu os comunistas do mundo... Mas depois... Bem... Você viu o Stálin, não viu? E aquele paspalho ainda se dizia comunista... Tsc tsc... Até hoje não surgiu ninguém fazendo socialismo, sempre há alguma falha...
P.N.: Mas o Manifesto ganhou título de Best-Seller no Circuito Alternativo entre as décadas de cinqüenta e setenta...
Marx: Isso foi claro... Porém lembremos que a moda na época era ser de esquerda... Andar com um livrinho vermelho embaixo do braço atraía qualquer universitária. Deveria dar um certo... posso falar?
P.N.: Garanto que não há ninguém da polícia secreta no estúdio...
[o rosto do escritor se torna avermelhado]
Marx: ...tesão para aquelas garotas ver algum barbudo comunista.
[a platéia ri e aplaude]
P.N.: Hoho! Karl, você nos pegou de jeito agora! [mais aplausos. O apresentador espera a platéia se acalmar para prosseguir] Vale lembrar também das camisas com estampas do seu rosto, Marx...
Marx: Aquilo foi um chute no meu saco... Mas elas ficaram bonitas. As vermelhas são as minhas preferidas... Vermelho realça os olhos, sabe?
P.N.: Também funciona com as estampas do Che Guevara... Karl, você pode nos falar sobre o seu novo trabalho.
Marx: Bem... Como notei que ninguém nunca leu “O Capital” por completo e o “Manifesto do Partido Comunista” não fez o efeito que eu queria, decidi lançar uma nova coleção. Você pode dar um close ali?
P.N.: Sim, claro! Câmera quatro, por favor...
[a câmera quatro enquadra a filmagem em um mostruário com três livros pequenos, de capas com letras chamativas e cores agradáveis]
Marx: O primeiro, como vocês podem ver, chama-se “Compreendendo a Luta de Classes a partir do seu escritório – um guia de sobrevivência à opressão do seu chefe”. Foi o primeiro que escrevi. Ao lado há “O Comunismo em sua vida”, que tem trezentas e sessenta e cinco páginas, uma para cada dia do ano com questionamentos e filosofias cotidianos. Por último, e acho que foi, dos três, o mais difícil de escrever: “Doze passos fáceis para acordar o Revolucionário que existe dentro de você”.
P.N.: É impressão minha ou a linguagem parece ter se tornado mais fácil?
Marx: Minha linguagem já era fácil com os dois últimos livros... Agora só aproveitei a tendência do público.
P.N.: Auto-Ajuda?
Marx: [abaixa a cabeça] É por aí...
P.N.: E quem quiser saber mais sobre a nova fase de sua carreira, Karl?
Marx: Os livros já estão nas melhores livrarias. Eu também tenho um endereço na internet... Acho que já está mostrando na legenda do programa, não?
P.N.: Sim... Pessoal, este foi... [em coro, a platéia suspira, já sentindo a falta do ilustre convidado]... Karl Marx, falando da sua nova carreira como escritor e dos seus novos títulos, além de dar uma palavrinha a mais para o nosso programa.
[a platéia aplaude e Marx acena com a cabeça para o público]
P.N.: No próximo bloco iremos chamar o poeta Olavo Bilac para que ele explique a sua mais recente e polêmica participação no último disco de Caetano Veloso em regravações de grandes sucessos da música brega. Não percam! [toca-se Jazz Livre novamente, em volume crescente] Alguma consideração, Karl?
Marx: Eu posso ficar com a xícara do programa?
[sorrisos]
P.N.: Faço questão que leve uma para casa! [virando para a câmera] “O Programa Noturno Talk Show” dá espaço para os comerciais e volta em instantes!

[a câmera se afasta. Karl Marx aperta as mãos do apresentador. A banda continua tocando jazz, enquanto o logotipo do programa surge na tela]

 
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